quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Untitled: Capítulo 2

O Monte Fuji me observava lutar pelo deserto. A sua imponência não havia mudado no "novo mundo". Continuava a ser uma figura respeitável na paisagem.
Andei muitas luas. Sobrevivi com os suprimentos adquiridos dos destroços das antigas lojas japonesas. Felizmente, talvez, a falta de outras almas sem destino como eu tenha tornado desnecessário o grande esforço pela procura de comida. E bebida, obviamente. Munido de um Jack Daniel's pego em uma prateleira de um estabelecimento qualquer, era essencial manter-me acordado com suas doses alcoólicas. Nem me preocupava quando alcançava os últimos goles. O Japão tem muitas cidades para abastar-me de whiskeys.
Apesar de ter aprendido a não estranhar-me com quaisquer situações, essa particularmente o fez. Notei a presença de um valete de ouros no chão. "O que tal carta faria perdida no meio do deserto?" O Nada, rapidamente, girou ao redor do meu ser. Mirei norte, sul, leste, oeste e ao Nada. Ninguém. Recolhi a carta do solo arenoso e apressei o passo. O momento era de tensão.
O problema começou quando ouvi algo se aproximando rapidamente. Era algum animal, provavelmente. Um quadrúpede com pêlos negros e cinzas, misturados. A face felina e pernas finas. As orelhas para cima, saltando para fora de uma juba semelhante a de um leão. Percebi a trilha de ouros, espadas, paus e copas que o acompanhavam. Rapidamente, saquei um dos revólveres e dei um tiro certeiro, no suposto "coração" do animal. Deitou-se, gemendo. Senti uma sensação de tristeza vendo tal criatura padecer em minha frente. Infelizmente, era eu ou ele.
Segui minha curiosidade. O rastro feito de um baralho levou-me a algo surpreendente: um corpo. Estava morto há alguns dias, deduzi. Fiquei abismado em achar um ser sobrevivente do Evento como eu. Talvez ele tivesse sido tão pacato quanto eu. Deus o poupou. Não. O Evento o poupou. Mesmo assim, sobreviveu o suficiente para ser morto por um dos híbridos. "Seu destino não era viver", pensei. Somos tragados para o além eventualmente. Passar ileso dos "23 minutos" não significa vida eterna. Esse corpo é a prova disso.
O Nada fez suas constatações usuais. Entediei-me com os "blá blá blás" sobre a ausência de sentido pós-Evento e a irrelevância de acharmos um corpo após tanto tempo sem ver um "humano". Já sabia disso. Apenas repeti tal fator, compartilhando-o com meu único amigo.
A escuridão se aproximava, derrubando minhas forças. Resolvi descansar pela primeira vez em dias. Odeio ficar parado em um mundo congelado como esse. Mas, agora, o cansaço me derrotou.
Sonharei com mais um amanhã. Sinto que a maré está para mudar.

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