terça-feira, 11 de agosto de 2009

Untitled: Capítulo 1

A visão confortou-me, finalmente. Sentado na caixa d'água do prédio mais alto de Tóquio, vi as estrelas pela primeira vez em anos. Não que estes importem, deixei de contar o tempo desde que aconteceu. O Evento.
O céu estrelado sempre esteve lá. Não o enxergava pois olhava, apenas. Foi no ritmo noturno acompanhado pelo eterno silêncio que adormeci. "Amanhã será um novo dia", pensei. Estúpido. Os dias são iguais e, como já mencionei, o tempo não faz mais sentido. O maldito Evento apagou sua importância da face do, agora, vago deserto que chamo de "casa".
Foi no sono que lembrei-me de meu grande amigo: o Nada. Um companheiro eterno com qual tenho uma relação conflituosa. Lutamos por nossas dignidades, provando, um ao outro, o próprio valor. Geralmente não nos entendemos e decidimos ignorar a presença do outro, inutilmente. Acabamos voltando sempre ao mesmo ponto: somos o resto; devemos nos unir.
A manhã seguinte foi de reflexões. Perguntei ao Nada sobre como prosseguir. Respondeu-me como sempre, com indecisões. Nem posso reclamar de suas respostas, pois são minhas também. Queria ignorá-lo mas, através de experiências passadas, sabia que tal ação se mostraria ineficaz e improdutiva.
Decidi vagar pelas ruas da cidade, em busca de algo. O Nada fielmente me acompanhou, demonstrando seu ar apático usual na caminhada. Tóquio está irreconhecível. Carros vazios, luzes apagadas. Prédios tombados ou desmoronando. Alguns poucos aguentando, na tentativa de manter o antigo visual da cidade. Eu, porém, observo tudo com indiferença. Não conheci a antiga Tóquio, nem sou daqui. Andei muito desde o Evento. Percebi, finalmente, que era o lugar mais seguro para se passar o resto dos meus inúteis anos. Entretanto, de nenhuma maneira esquecerei meus dois revólveres. São os filhos encontrados em uma viagem ao Texas, alguns meses após o Evento. Engraçado, mesmo sem perceber, minha memória armazenou o tempo dos acontecimentos mais importantes "pós-23 minutos". Chame de pós-Evento, se quiser.
A temperatura do inverno japonês agora beira aos 38ºC. Suficiente para sentir frio. Visto meu casaco estilo "faroeste" e coloco o chapéu para proteger-me do sol. A medida que me afasto do quê um dia foi chamado de civilização, termino minha vestimenta com um lenço tapando a boca e o nariz, a fim de evitar a entrada da areia, componente do novo "chão".

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