sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pele de Vidro

A neblina flutuava em ritmo lento e alternado sob o ar seco e frio. As nuvens atravessavam seu corpo. Soltavam risadas curtas a medida que o deixavam para trás. Uma lágrima desceu do rosto finalmente abandonado...

Enquanto caía, as partículas desmoranavam-se em forma de pequenos cubos de água. Apesar de minúscula, ele via o fenômeno naturalmente, como se estivesse contemplando o gran finale de uma colossal estátua . O pensamento o desviou da tristeza que a solidão lhe proporcionava.

Atingiu o chão. O espetáculo havia acabado. Voltou-se para o horizonte cego e cinza, esperando para ser observado. Uma fenda abriu-se lá, distorcendo o tempo e o espaço. "Estou enlouquecendo", pensou. Um ser alado foi em direção àquela abertura. Ao vê-lo, aquele homem sentiu esperança. O ser desintegrou-se quando se aproximou demais. A esperança do homem havia morrido.

Foi, então, vagando até lá. Esperava desintegrar também. Sua pele de vidro refletia a intensa luz do ambiente. Rachava e quebrava, mas não tinha dor. Alí estava para decidir seu caminho. Seu destino. Arrastou o resto que chamava de "vontade" até ver uma pequena mão...

Alcançou a mão, suavemente, e a apertou com força. Era pura. Não havia sido corrompida pelo mundo ao redor. Um recém-nascido que, no seu despertar para o mundo, despertou o homem também.

Levantou-se e jogou fora a caixa de remédios que segurava. Olhou para a janela e percebeu o sol refletido na sua pele de vidro. Sorriu.

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